A inimiga imaginária chega e…

Eis que de repente tudo o que você faz parece não ser bom o bastante. E tudo aquilo que você diz parece não ter relevância alguma. Cada esforço não tem um pingo de importância sequer.
 
Num pequeno instante depois as pessoas aparentam não estar nem aí para você. É como se você gritasse por ajuda e ninguém te ouvisse. Igual àqueles pesadelos em que você tenta falar ou correr, mas não sai do lugar.
 
Você perde o sono, desconfia da própria sombra, sente vontade de xingar e, minutos depois, chora por perceber que criou todas essas situações.
 
— Impostor, malquisto, imperfeito, malvisto.
Fonte: sua cabeça.
 
Como não confiar nessa safada que está contigo desde o nascimento? Simples, não confiando.
Aprenda a conviver com ela, mas faça terapia, viva um dia de cada vez, busque ajuda, extravase da melhor forma… Peça ajuda, mas não deposite todas as suas expectativas nos outros, nem sempre eles sabem ou entendem o que você está passando.
 
É dolorido, mas tem jeito. Pode parecer que não, mas tem. Não desiste de você assim não, cara! Volte aqui para ler isso sempre que precisar. E não tem problema que tenha sido você mesmo o autor do texto. Até logo!

Mahmoud & Shirin

O pequeno Mahmoud foi arrebatado logo cedo pelo amor. Já aos 9 anos se apaixonou pela sua vizinha Shirin Stelle.

A família de Mahmoud não simpatizava tanto com a amizade das duas crianças, já que as origens de Shirin não eram muito convencionais. Sua mãe, Lorenna, era uma fotógrafa inglesa que não seguia os costumes locais, muito embora fizesse questão que a filha, em respeito ao pai, fosse criada de acordo com a cultura iraniana. Ainda assim, Mahmoud se imaginava casando com Shirin e constituindo uma família.

Mas o destino parecia não querer que isso acontecesse, já que aos 15 anos, o pai de Shirin morreu em um acidente e sua mãe regressa para a Inglaterra levando-a junto.

A despedida foi difícil, afinal os dois sequer conseguiram trocar um primeiro beijo. Mahmoud sentiu uma dor enorme quando viu a casa de Shirin trancada. Mas prometeu a si mesmo que um dia a reencontraria e os dois finalmente seriam felizes.

***

Três anos se passaram desde a separação forçada, até que o reencontro finalmente ocorreu. A demora se deu pois a família de Mahmoud sempre seguiu à risca os preceitos do líder supremo do país. Eles não eram adeptos de uma prática comum por lá: acessar a sites de internet utilizando VPN como uma forma de burlar os bloqueios impostos. Por conta disso, Mahmoud nunca procurou Shirin em redes sociais, o caminho mais fácil para um reencontro.

Finalmente, depois de muitos anos de bloqueio, os jornais noticiaram que o Facebook estava desbloqueado no Irã. Mahmoud foi tomado pela esperança e imediatamente criou um perfil. Em menos de cinco minutos já havia localizado sua amada. Não era uma tarefa difícil, já que um nome tão incomum que misturava duas culturas tornava Shirin Stelle uma pessoa única.

Mahmoud enviou uma mensagem para a amada e o melhor de tudo é que ela respondeu poucos minutos depois. Ele custava a crer que finalmente havia reencontrado Shirin.
Os dois colocaram a conversa em dia. De um lado, Shirin contando de seus dias na faculdade. E, de outro, Mahmoud sobre o primeiro emprego tão promissor.

Logo as notícias que chegaram davam conta de que o desbloqueio do Facebook seria temporário e em breve o acesso seria limitado novamente. Mahmoud se desesperou, mas prontamente Shirin pediu seu endereço e disse que manteria contato por cartas.

***

Foram semanas até que a primeira carta de Shirin chegasse. Mahmoud tocava o papel emocionado e relia diversas vezes para contemplar a letra da amada e também para verificar se os anos estudando inglês por livros tinham sido tão proveitosos.

Mahmoud não respondeu a carta. A ansiedade o impedia. Pela primeira vez, resolveu quebrar as regras e usar o VPN para acessar o Facebook e enviar mensagens para a amada todo os dias.

Apesar de todo o amor que sentia, ele jamais tocava nesse assunto com Shirin. As conversas quase sempre eram sobre amenidades e, principalmente, sobre o quanto a vida na Europa era diferente.

Na verdade, Mahmoud sabia que teria um grande problema ao tentar levar a relação adiante, pois sua família certamente seria contra.

A situação estava deixando Mahmoud aflito demais. Logo, ele decidiu que assim que recebesse uma espécie de “sinal” deixaria tudo de lado e iria para Londres buscar Shirin.

Um dia, ao chegar em casa, Mahmoud foi até o computador enviar notícias para sua amada. Porém, ao acessar o Rajanews, leu uma notícia em que o líder supremo do Irã afirmava que a troca de mensagens online entre jovens era imoral e não permitida.

Sua consciência doeu e Mahmoud se sentiu culpado demais, mas logo concluiu que aquele sentimento era o tal sinal para ir embora.

***

Mahmoud arrumou as malas e esperaria a madrugada para sair de casa escondido dos pais. Já tinha um plano: adquirir as passagens aéreas mais baratas de um voo de doze horas de duração para Gydu Heydar, no Azerbaijão. De lá, seguiria para Londres.

Deitado na cama, esperava o momento da partida. As lembranças de Shirin e a possibilidade de passar o resto da vida com ela ocupavam sua cabeça.

Quando a hora chegou, Mahmoud sussurrou um pedido de perdão aos pais pela fuga.

***

Chegou a Londres completamente assustado. Sua origem e aspecto físico geravam desconfiança por onde passava. O que salvava era seu inglês, que estava muito bom.
Mahmoud trazia consigo o envelope com o endereço de Shirin. Enquanto o táxi fazia sua rota, se espantava a cada esquina cruzada.

Seu coração disparou ao avistar o pequeno sobrado em que Shirin vivia. Admirou a entrada por alguns minutos até tocar a campainha.
A mãe de Shirin atendeu a porta, muito surpresa em vê-lo. Mahmoud explicou que estava de férias pela Europa e passou para fazer uma visita. Lorenna disse que a filha não estava em casa, havia saído para almoçar com alguns amigos em um local próximo dali. Ela convidou o jovem para entrar, mas Mahmoud preferiu encontrá-la no restaurante.

Aflito, ele andava apressado pelas ruas até avistar o tal restaurante, com uma grande área externa. Foi fácil reconhecer a bela Shirin entre as mesas, mas a surpresa não foi muito agradável. Ela estava na companhia de um belo rapaz, conversando, sorrindo e mexendo nos cabelos, que estavam descobertos.

Aquela cena encheu Mahmoud de ódio. Como pode sua amada estar tão indecente em público? E na companhia de outro homem?

Enfurecido, se aproximou de Shirin e gritou com ela. Ele percebeu que havia uma pedra no chão, pegou e atirou, atingindo o ombro da jovem.

— O que você está fazendo aqui, Mahmoud? Por que você fez isso?
— É isso que as mulheres sem respeito merecem!
— Que absurdo! Você não tem o direito, Mahmoud!
— Como seu futuro marido, eu tenho direito!
— E quem disse que eu vou me casar com você?
— Sua mundana!

Mahmoud foi para cima de Shirin, mas o rapaz que a acompanhava se levantou e o segurou pelo pescoço.

— Talvez seja assim que vocês tratam as mulheres no seu país, mas no meu esse tipo de homem covarde merece coisa muito pior!

Ele jogou Mahmoud no chão e o agrediu até que desmaiasse.

***

Mahmoud acordou assustado e chorou bastante. Ele se sentia envergonhado pelo que havia feito e dilacerado por saber que jamais veria sua amada de novo. Porém, logo notou que não sentia a dor dos ferimentos.

Aos poucos percebeu que tinha apenas sonhado e que já havia amanhecido.

Bem depressa se levantou e pediu a benção aos pais. Voltou para o quarto e, arrependido, chorou. Pouco depois, ele riu dos seus pensamentos e de como tudo aquilo era absurdo. Afinal, ele sequer teria entrado em Londres sem um visto ou encontrado tão fácil a casa de Shirin. Ele também imaginava que em outro continente seria difícil que Shirin ainda seguisse de forma rigorosa os costumes de seu povo. Nada o deixaria mais feliz do que ver a sua esposa feliz também, sem amarras ou imposições.

***

Alguns dias depois, uma nova carta de Shirin chegou. O envelope era mais grosso e pesado do que o primeiro.

Para a surpresa de Mahmoud, dessa vez a carta não estava em inglês. Escrevendo em farsi, Shirin dizia o quanto estava feliz por reencontrá-lo, afinal isso fazia com que ela estivesse em contato com sua cultura e também com o amor novamente.
O amor. Mahmoud não acreditava no que havia lido. Mas estava lá. Ela tomara a iniciativa para manifestar algo que ele até então não conseguia.

Sim, Shirin o amava!

Junto com a carta, Shirin enviou uma linda foto. Ela usava o hijab e mantinha o rosto de fora, com um sorriso encantador e seus olhos verdes cintilando. Ainda que não estivesse totalmente de acordo com os costumes, era um meio termo interessante para Mahmoud.

O envelope também trazia uma chave. Sobre ela, Shirin dizia no final da carta:

“Gostaria que você fosse até minha antiga casa e a abrisse. Está tudo lá, do jeito que deixamos ao partir. Os móveis, os objetos, meus brinquedos. Serão lembranças boas de reviver. Aproveite o momento e embale o que puder. Traga com você.

Tenho certeza que juntos construiremos uma bela família em Londres, Mahmoud. 

Mas com o jeito de nossa terra natal. Posso contar contigo?

Com amor,

Shirin”

Mahmoud sorriu e seu coração se encheu de alegria. Ele guardou a carta com carinho e foi para a antiga casa de Shirin com a chave nas mãos. No caminho, seu pai perguntou onde ele estava indo.

— Começar a minha família, pai.

Sempre…

Sempre haverá um livro de autoajuda dizendo que sua vida pode ser mais simples.

Sempre haverá uma lista com os dez hábitos das pessoas realmente felizes.

Sempre haverá uma música ou poema te dizendo para não se preocupar.

Sempre haverá uma blogueira te dizendo como se vestir bem para conseguir um emprego melhor ou como estar em um relacionamento duradouro. E outra te contando quais alimentos você pode ou não comer e em qual cidade você deve viver a partir de um rápido teste.

Você toma nota disso tudo, coloca em prática e ainda assim acorda num dia complicado, se pega triste e preocupado com algo relativamente banal. E ainda veste sua roupa velha manchada pra ir trabalhar, vê que está comendo uma coxinha gordurosa antes das 9 da manhã e continua procurando alguém pra namorar porque o último sumiu e bloqueou seu número.

Por fim, chora de cabeça cheia e tenta entender porque deu tudo errado com suas listas tão bem elaboradas.


Sendo que, na verdade, o erro foi um só: achar que a gente tem manual de instruções!

Remoto e Improvável na Amazon

Amigos, em 2019 Paloma e eu comemoramos 5 anos da publicação do nosso primeiro livro. Ele esgotou em todo lugar, mas agora temos duas ótimas notícias!
A primeira é que a versão e-book está disponível novamente na Amazon.
E a segunda é que você pode adquirir GRATUITAMENTE até dia 21/01. Quem ainda não leu, aproveite esta oportunidade. Espero que gostem do nosso primeiro filhote!

 

Impostor. Imperfeito. Impossível.

Essa semana postei uma pergunta nas minhas redes sociais:

Alguma vez você já sentiu que não era digno ou merecedor de algo extremamente bom que aconteceu na sua vida?

Muita gente me respondeu que se identificava com isso.
Outros me disseram que isso se chama Síndrome do Impostor: você, cheio das imperfeições, fica com a sensação de que vai ser descoberto a qualquer momento como uma fraude. Seja por problemas de autoestima ou por excesso de comparação com os outros.

Que bosta.
Que grande bosta.

A gente faz tanta coisa, se dedica, bota todo o comprometimento possível pra depois jogar tudo fora, só porque olhou pro lado e achou a grama do vizinho mais verde.
E a gente acha que isso não acontece com o vizinho, né? Mas a quantidade de mensagens que recebi essa semana só me mostrou o contrário.

Então, gente, quer saber, FODAM-SE AS NOSSAS IMPERFEIÇÕES!
Não tem essa de impostor aqui não.

Olha:

  • Eu sou preguiçoso.
  • Tomo vários remédios por dia pra controlar a ansiedade.
  • Travo pra falar em público.
  • Não me sinto confortável socializando. Muito menos abordando as pessoas pra divulgar meus livros.
  • As minhas ideias parecem muito mais geniais quando estão só na minha cabeça e, quando começo a colocá-las em prática, desisto.
  • Sempre fico com medo de não ser levado a sério profissionalmente porque as pessoas acham que tenho cara de moleque.
  • Sou desorganizado com a minha casa.
  • Esqueço de mandar mensagens para os amigos, mesmo amando cada um deles fortemente.
  • Me desespero com bobagens.
  • Sinto ciúmes.
  • Meu humor é péssimo de manhã e acho que as pessoas são obrigadas a entender isso.

Uma pequena lista, mas que cresceria mil vezes mais se eu tivesse mais tempo de ficar digitando aqui.

Enfim, quer dizer que por esses e tantos outros problemas que carrego eu não sou merecedor daquilo que conquisto? Para a minha cabeça, sim. E para a de tantas outras pessoas, também.

É, minha gente, não tem jeito! Seja impostor ou imperfeito, fica impossível não lutar com essa voz que nos joga no poço do desânimo.

A gente merece aquela coisa boa que apareceu sim.
E, se duvidar, merecemos até mais do que ela!

Brindemos às nossas imperfeições. 😉

Pessoas, colchões, dominós, quedas e por aí vai…

Se você estiver de pé em frente ao seu colchão, tem coragem de abrir os braços e se deixar cair? Ou você fica paralisado e não consegue?

Muitas vezes já me disseram que isso tem a ver com relaxamento e confiança. Será que você consegue relaxar a ponto de se jogar? E será que você confia que a queda não vai te causar nenhum dano?

Bom, isso varia de uma pessoa para a outra, a gente sabe. O que queria registrar hoje é que é possível traçar um paralelo disso com as nossas relações pessoais. Quando tudo está dando errado ou quando a correria mal nos deixa respirar, precisamos não apenas de relaxar, mas de nos jogar nos braços de alguém com o qual temos uma relação de confiança, para desabar sem medo de machucar, sabe?

No melhor dos mundos, isso é uma via de mão dupla. Por isso, muitas vezes também somos esse colchão na vida de alguém, aquela pessoa para a qual correm e desabam. E a gente segura as pontas, é claro, não apenas pela relação de confiança estabelecida, mas porque também aguentamos aquele peso temporário em nossas vidas.

E assim segue, umas horas a gente cai, outras horas precisamos cair. Se tem o que nos ampare, tá tudo certo.

Só que essa é uma situação ideal, né? O mais complicado (mudando a metáfora, porque sou cheio disso) é quando somos a última peça de um dominó enfileirado, sabe? Todas as outras vão caindo e sendo amparadas. A última não, coitada. Vai direto pro chão, sem apoio.

Aí você pensa: “mas a altura é tão pequena, que exagero!”. Será? Quem sabe o tamanho da queda é quem caiu, meu caro.

E aí, como é pra você? Tem algum colchão sempre pronto te esperando caso precise cair? E você consegue se jogar sem medo? Ou fica aquela pontinha de receio de ser a última peça do dominó?

Pensa nisso com carinho, às vezes você não sabe onde ou se pode cair. Mas sempre pode. E precisa! 😊