Pessoas, colchões, dominós, quedas e por aí vai…

Se você estiver de pé em frente ao seu colchão, tem coragem de abrir os braços e se deixar cair? Ou você fica paralisado e não consegue?

Muitas vezes já me disseram que isso tem a ver com relaxamento e confiança. Será que você consegue relaxar a ponto de se jogar? E será que você confia que a queda não vai te causar nenhum dano?

Bom, isso varia de uma pessoa para a outra, a gente sabe. O que queria registrar hoje é que é possível traçar um paralelo disso com as nossas relações pessoais. Quando tudo está dando errado ou quando a correria mal nos deixa respirar, precisamos não apenas de relaxar, mas de nos jogar nos braços de alguém com o qual temos uma relação de confiança, para desabar sem medo de machucar, sabe?

No melhor dos mundos, isso é uma via de mão dupla. Por isso, muitas vezes também somos esse colchão na vida de alguém, aquela pessoa para a qual correm e desabam. E a gente segura as pontas, é claro, não apenas pela relação de confiança estabelecida, mas porque também aguentamos aquele peso temporário em nossas vidas.

E assim segue, umas horas a gente cai, outras horas precisamos cair. Se tem o que nos ampare, tá tudo certo.

Só que essa é uma situação ideal, né? O mais complicado (mudando a metáfora, porque sou cheio disso) é quando somos a última peça de um dominó enfileirado, sabe? Todas as outras vão caindo e sendo amparadas. A última não, coitada. Vai direto pro chão, sem apoio.

Aí você pensa: “mas a altura é tão pequena, que exagero!”. Será? Quem sabe o tamanho da queda é quem caiu, meu caro.

E aí, como é pra você? Tem algum colchão sempre pronto te esperando caso precise cair? E você consegue se jogar sem medo? Ou fica aquela pontinha de receio de ser a última peça do dominó?

Pensa nisso com carinho, às vezes você não sabe onde ou se pode cair. Mas sempre pode. E precisa! 😊

Uma festa por dia

No dia 22 de dezembro completaria 34 anos.

Pouco depois, haveria a festa de Natal da casa dos sogros em Indaiatuba.

Na semana seguinte, passaria a virada do ano em Punta del Este.

E desde julho estava ansiosa.

“Que roupa usar na festa? Qual cardápio servir? E as músicas? Preciso mandar fazer os convites, quero algo lindo! Ai, chega logo dia 22!”

“Que prato levar para a ceia de Natal? Alguma sobremesa também? Será que a sogra vai gostar? Ou será que vai comparar cada prato com sua própria versão, mais elaborada e preparada com dias de antecedência? Não seria melhor encomendar alguma coisa pronta e ficar despreocupada? Melhor né? Nossa, e os presentes de todo mundo, preciso fazer uma lista. Que gostoso! Ai, chega logo dia 24!”

“Levo minha própria toalha para o hotel em Punta? Nunca se sabe… Biquíni ou maiô? Pagar uma academia até dezembro para ficar mais em forma? Que tal algumas sessões de bronzeamento artificial para não chegar tão branca? Ah, uma câmera nova! Passaporte? Não precisa. Ai, qual marca de bronzeador levar? Com certeza shorts novos para o Rafael, os dele estão feios e desbotados e só de pensar nele desfilando de sunga e atraindo os olhares alheios… Ah, se bem que… Ele está comigo, não preciso me preocupar. Ai chega logo dia 27!”

Passou os meses seguintes planejando, pensando em roteiros, possibilidades, o que falaria, o que viveria, quais atitudes tomaria… Calculou cada passo, pensou em cada imprevisto… As duas últimas semanas do ano seriam perfeitas de qualquer maneira!

E foram! Não havia outra possibilidade.

Uma festa de aniversário mais que divertida, com as pessoas que mais amava.

Uma ceia de Natal repleta de elogios e presentes que agradaram a família do marido.

Uma viagem inesquecível, que garantiu aqueles momentos que se eternizam na mente como fotografias.

Mas, vieram janeiro e uma angústia gigante.

E agora?

“Em que focar meus planos? Como gastar meu tempo? Qual o sentido disso tudo? Meses organizando pra passar e virar saudade? Isso não tá certo!”

Choro. Desânimo. Angústia. Ficou arrasada e a falta de propósitos a levou para o fundo do poço.

Teria solução?

Pensou, pensou, planejou, planejou.

“Já sei!”

Como só estava feliz planejando e executando, tratou de organizar a vida da forma que melhor fazia.

Agora vivia uma festa por dia e tornou especial cada momento cotidiano.

O café da manhã reforçado da segunda-feira.

O jantar especial da terça.

O cinema na quarta.

Um bom vinho na quinta.

Uma transa animada na sexta que poderia se prolongar até o sábado.

O programa divertido de domingo à noite para tirar a sensação ruim de fim do fim de semana.

E, claro, todas as festas, viagens e programações especiais ao longo do ano.

Virou produtora e promotora de eventos para manter o coração em paz.

Às vezes se sentia fútil, é verdade.

Mas, ainda assim, nada como viver com algum propósito na vida, não é mesmo?

O livro dos gnomos

Repostando este texto de 2016, de quando a Rô partiu. 2 anos depois, relembrando uma história que me marcou. 🙂

Antigamente o centro de Ribeirão Preto tinha um monte de livrarias. Adorava passar por elas!

Uma delas, a Acadêmica, era minha favorita, pois em uma das vitrines havia um livro que eu sonhava em ter: Gnomos da Floresta.

Ele era branco, grande e tinha um gnomo desenhado na capa. Não fazia a menor ideia do que se tratava – acho que eu nem sabia ler na primeira vez que o vi – só sei que queria muito!

Por diversas vezes pedi pro meu pai me dar aquele livro de presente, mas ele dizia que custava muito caro. Eu não faço a menor ideia de quantos cruzeiros, cruzados, URVs ou seja lá qual era a moeda que mudava todo mês, mas pela cara do meu pai realmente custava caro.

Um dia passei em frente da livraria com a minha madrinha, a Rosane, e mostrei o livro pra ela. A Rô me disse que custava sim um pouco caro, mas que um dia o preço poderia baixar e ela faria questão de comprar o livro pra mim.

Fiquei todo animado e ansioso, achando que seria no dia seguinte. (Criança e noção de tempo não combinam, né?) Mas foram se passando dias, semanas, meses… E nada do livro!

Até que um dia, eu já devia ter uns 9 anos, a Rô me avisou que finalmente me compraria o tal livro dos Gnomos. Nem sei explicar o quanto fiquei contente por ela nunca ter se esquecido daquela promessa.

Me arrumei todo e, algumas horas depois, ela apareceu pra me buscar e fomos até a livraria. Fiquei contando os minutos, te juro!

Mas… Como sempre, lá vem o balde de água fria. Ao chegarmos na livraria Acadêmica, o livro já estava esgotado e era bem provável que nunca mais receberiam outros exemplares, afinal a edição era até um pouco antiga, dos anos 70 ou 80.

Fiquei super decepcionado. E olha que ela até me comprou outros livros nesse dia, mas fiquei com aquela vontade entalada.

Os anos foram passando e me esqueci completamente dessa história.

***

Muito tempo depois, eu já com quase 30 anos e morando em São Paulo, um dia atravessava muito apressado aquela passagem subterrânea que vai da Avenida Paulista para a rua da Consolação. Se você já passou por ali, com certeza notou que durante o dia tem uma banca de livros antigos à venda.

Nunca dei muita bola para a banca, afinal sempre passava atrasado pras aulas de cinema, mas naquele dia parei para olhar. E dentre tantos livros de diversas épocas vi um meio escondido que me chamou muito a atenção. Era branco, a fonte parecia a mesma… Será que era o mesmo?

ERA! 

O livro dos Gnomos da Floresta:

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Me esqueci da pressa e dei uma boa risada, lembrando do quanto quis aquele livro na minha infância e, agora, ele estava ali novinho por uma bagatela de… 15 reais. Comprei na hora!

Finalmente pude abrir o livro e ler com calma, olhar as figuras, tudo aquilo que demorei anos pra conseguir. Foi uma experiência muito gostosa.

***

Sempre fico feliz quando me pego relembrando pequenos prazeres da infância depois de adulto. É uma alegria muito grande saber que esse garotinho ainda vive dentro de mim.

Ah, e quanto a Rô, ela ficou muito emocionada quando contei pra ela no Facebook que encontrei o livro. E prometi que levaria pra mostrar pra ela lá em Ribeirão. No fim das contas, acabei esquecendo.

Relembrei mais uma vez essa história no dia em que a Rosane nos deixou, em 2016. E aquele garoto que vive dentro de mim só tem a agradecer por todo o carinho que ela me deu. E por sempre embarcar nas minhas loucuras e chatices. Principalmente nesses presentes malucos que só eu queria ganhar. (Sério, eu pedi uma lanterna de natal e ela me deu! Mas isso será história para um outro dia.)

Descanse em paz, Rô. Obrigado por tudo!