O livro dos gnomos

Repostando este texto de 2016, de quando a Rô partiu. 2 anos depois, relembrando uma história que me marcou. 🙂

Antigamente o centro de Ribeirão Preto tinha um monte de livrarias. Adorava passar por elas!

Uma delas, a Acadêmica, era minha favorita, pois em uma das vitrines havia um livro que eu sonhava em ter: Gnomos da Floresta.

Ele era branco, grande e tinha um gnomo desenhado na capa. Não fazia a menor ideia do que se tratava – acho que eu nem sabia ler na primeira vez que o vi – só sei que queria muito!

Por diversas vezes pedi pro meu pai me dar aquele livro de presente, mas ele dizia que custava muito caro. Eu não faço a menor ideia de quantos cruzeiros, cruzados, URVs ou seja lá qual era a moeda que mudava todo mês, mas pela cara do meu pai realmente custava caro.

Um dia passei em frente da livraria com a minha madrinha, a Rosane, e mostrei o livro pra ela. A Rô me disse que custava sim um pouco caro, mas que um dia o preço poderia baixar e ela faria questão de comprar o livro pra mim.

Fiquei todo animado e ansioso, achando que seria no dia seguinte. (Criança e noção de tempo não combinam, né?) Mas foram se passando dias, semanas, meses… E nada do livro!

Até que um dia, eu já devia ter uns 9 anos, a Rô me avisou que finalmente me compraria o tal livro dos Gnomos. Nem sei explicar o quanto fiquei contente por ela nunca ter se esquecido daquela promessa.

Me arrumei todo e, algumas horas depois, ela apareceu pra me buscar e fomos até a livraria. Fiquei contando os minutos, te juro!

Mas… Como sempre, lá vem o balde de água fria. Ao chegarmos na livraria Acadêmica, o livro já estava esgotado e era bem provável que nunca mais receberiam outros exemplares, afinal a edição era até um pouco antiga, dos anos 70 ou 80.

Fiquei super decepcionado. E olha que ela até me comprou outros livros nesse dia, mas fiquei com aquela vontade entalada.

Os anos foram passando e me esqueci completamente dessa história.

***

Muito tempo depois, eu já com quase 30 anos e morando em São Paulo, um dia atravessava muito apressado aquela passagem subterrânea que vai da Avenida Paulista para a rua da Consolação. Se você já passou por ali, com certeza notou que durante o dia tem uma banca de livros antigos à venda.

Nunca dei muita bola para a banca, afinal sempre passava atrasado pras aulas de cinema, mas naquele dia parei para olhar. E dentre tantos livros de diversas épocas vi um meio escondido que me chamou muito a atenção. Era branco, a fonte parecia a mesma… Será que era o mesmo?

ERA! 

O livro dos Gnomos da Floresta:

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Me esqueci da pressa e dei uma boa risada, lembrando do quanto quis aquele livro na minha infância e, agora, ele estava ali novinho por uma bagatela de… 15 reais. Comprei na hora!

Finalmente pude abrir o livro e ler com calma, olhar as figuras, tudo aquilo que demorei anos pra conseguir. Foi uma experiência muito gostosa.

***

Sempre fico feliz quando me pego relembrando pequenos prazeres da infância depois de adulto. É uma alegria muito grande saber que esse garotinho ainda vive dentro de mim.

Ah, e quanto a Rô, ela ficou muito emocionada quando contei pra ela no Facebook que encontrei o livro. E prometi que levaria pra mostrar pra ela lá em Ribeirão. No fim das contas, acabei esquecendo.

Relembrei mais uma vez essa história no dia em que a Rosane nos deixou, em 2016. E aquele garoto que vive dentro de mim só tem a agradecer por todo o carinho que ela me deu. E por sempre embarcar nas minhas loucuras e chatices. Principalmente nesses presentes malucos que só eu queria ganhar. (Sério, eu pedi uma lanterna de natal e ela me deu! Mas isso será história para um outro dia.)

Descanse em paz, Rô. Obrigado por tudo!